Analistas econômicos e especialistas do mercado financeiro demonstram inquietação diante de iniciativas que visam ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. O tema voltou ao debate público após investigações indicarem que uma emenda parlamentar dessa natureza teria sido redigida por funcionários de bancos privados. O FGC finalizou 2025 com reservas de R$ 123,2 bilhões, porém precisou comprometer R$ 57,4 bilhões — aproximadamente metade do patrimônio — para ressarcir clientes de instituições liquidadas. Esses dados demonstram a vulnerabilidade que uma expansão da proteção representaria para o fundo. ## Estrutura do fundo sob pressão Estabelecido em 1995, o FGC opera sistemas de proteção do mercado financeiro e assegura até R$ 250 mil por indivíduo em aplicações como depósitos, CDBs e poupança. A organização sustenta-se através de contribuições de bancos e instituições associadas. O economista William Baghdassarian, vinculado ao Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), considera que multiplicar o limite por quatro resultaria no encarecimento de tarifas bancárias. As instituições transfeririam o custo adicional aos clientes através de taxas mais elevadas e juros superiores. ## Incentivo a práticas arriscadas Baghdassarian identifica o chamado "risco moral" na proposta de ampliação do FGC. Uma garantia de R$ 1 milhão estimularia bancos a prometeram rendimentos irreais, aproveitando-se da falsa percepção de segurança. Tal cenário favoreceria comportamentos irresponsáveis no setor. O professor da Universidade de Brasília (UnB) Cesar Bergo compartilha a preocupação quanto à viabilidade do FGC. Ele ressalta que ninguém antecipava perdas de R$ 50 bilhões ao fundo, mesmo com as regras atuais de proteção. ## Colapso sistêmico no horizonte "A implementação do novo teto poderia ter provocado o colapso de todo o sistema", adverte Bergo. Para o acadêmico, o limite de R$ 250 mil funciona como freio contra estratégias agressivas, uma vez que instituições encontram obstáculos para atrair grandes investidores sem oferecer proteções extensas. Bergo critica o uso de recursos coletivos para beneficiar investidores abastados que compreendem os riscos envolvidos. Pessoas com R$ 1 milhão disponível para aplicação possuem conhecimento sobre as variáveis do mercado financeiro. ## Distorções no sistema de proteção O economista calcula que, caso a medida fosse implementada, as perdas teriam superado em pelo menos R$ 15 bilhões os valores registrados. Instituições utilizariam a garantia ampliada como argumento de venda, promovendo investimentos como totalmente seguros até o novo limite. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado rejeitou a emenda por inconstitucionalidade e inadequação técnica. O relator considerou inadequado cristalizar na Constituição matéria regulatória que demanda flexibilidade. ## Modelo internacional como referência A decisão baseou-se na avaliação de que a proposta contrariava práticas consolidadas tanto no Brasil quanto internacionalmente. O FGC brasileiro segue padrões reconhecidos mundialmente para fundos garantidores. A discussão sobre os parâmetros do FGC continua central para a estabilidade financeira nacional. Os indicadores disponíveis mostram que o formato vigente, apesar de enfrentar pressões recentes, preserva o equilíbrio entre proteção aos depositantes e sustentabilidade do fundo, elemento crucial para a credibilidade do sistema bancário brasileiro.